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25/12/2009 11:46


Kith | comentários(1)



26/09/2009 10:08

Tatina


Ele nasceu numa pequena aldeia na Polônia, no começo dos anos 20. Filho de um homem alto e magro e de uma mulher franzina, na qual o maior destaque eram os imensos olhos cor de mel.
Primogênito de uma família judaica religiosa, em casa aprendeu primeiro o Idish (dialeto usado pelos judeus europeus – uma mistura de alemão e hebraico). Nas ruas da pequena Kolomodlina começou a aprender o polonês e, com os amiguinhos de brincadeiras a canção “Tatina”.
Era uma canção engraçada, contando a história da menina Tatina que ficou doente e foi ao médico, recebeu um remédio e voltou pra casa, mas em vez de ficar boa ela sofreu mais com a visita ao médico do que com a doença: o carro em que viajava pulava muito pelas estradas e ele ficou com dor no traseiro.
Naquela época a inocente canção soava quase que pornográfica e o pequeno Zelig não ousou cantá-la em casa nem ensina-la aos irmãos. Mas adorava encontrar-se com os amigos e entoar “Tatina” quase aos sussurros, rindo entre uma estrofe e outra.
O tempo passou, Zelig foi embora da Polônia, veio para o Brasil. Tinha 7 anos quando chegou e foi colocado numa escola logo nos primeiros dias. Sofreu muito, pois não entendia nada do que os professores e colegas falavam. Afinal nunca havia escutado o Português antes.
Esforçado, em pouco tempo conseguiu acompanhar a turma e passou de ano com boas notas.
Estudou o antigo primário, depois um curso de desenho mecânico e foi trabalhar para ajudar a família. Os pais eram pobres (o pai trabalhava como passador numa lavanderia e a mãe era dona-de-casa). Como filho mais velho teve que arcar com a responsabilidade de ser quase um arrimo de família.
Com tanto trabalho e obrigações, esqueceu-se da velha canção polonesa.
O tempo passou, Zelig virou um homem grande e forte. Conheceu uma jovem frágil e bela, filha de uma família rica e se apaixonou. A jovem revelou-se “ousada” para os padrões da época: interessada no belo moreno, não esperou pela iniciativa de Zelig: numa bela tarde, surpreendeu-o com um apaixonado beijo.
Casaram-se depois de um breve noivado. Depois de um ano e meio, nasceu a primeira filha do casal, e logo em seguida a segunda filha. A primogênita tinha olhos verdes e serenos e lembrava a família da esposa. Já a caçula era franzina, de cabelos encaracolados e imensos olhos cor de mel, quase iguais aos de sua mãe.
Com mais responsabilidades, trabalhando cada vez mais, Zelig tornou-se cada vez mais sério, às vezes carrancudo.
Quando as meninas entraram na escola, voltavam sempre com novidades. A mãe fragilizada, não tinha paciência para ouvi-las, mas ele deixava sua seriedade de lado e divertia-se com as canções infantis entoadas desafinadamente pela caçulinha. Um dia, no meio dessa cantoria resolveu: iria ensinar “Tatina” para suas filhas.
Não foi fácil: a mais velha era séria demais e não gostou da história, já a caçula não conseguia repetir as palavras em polonês, ria da música, mas cantava tudo errado.
O tempo foi passando, as meninas crescendo e ele envelhecendo.
A mais velha lhe deu um neto tão sério quando a mãe. A mais nova lhe deu uma neta sorridente e de belíssimos olhos cor de mel – iguais aos de sua mãe!
A ligação entre ele e a menininha dos olhos cor de mel era muito especial, um amor desses que parece vir de vidas passadas.
Com o tempo passando, Zelig começou a perceber que sua memória não era a mesma: conseguia lembrar-se de fatos ocorridos a mais de 50 anos, mas não se lembrava do que havia acontecido naquela manhã!
Era a hora de preparar-se para passar seu legado adiante: Chamou a netinha, colocou-a no colo e contou-lhe coisas da sua infância em Kolomodlina, e terminou seu relato cantando “Tatina”.
A pequena deliciou-se com a história e, com todo carinho e atenção, esforçou-se para aprender a letra da música.
Não foi preciso muito tempo: como se fosse uma pequena polonesinha entoava a canção perfeitamente no mesmo dia em que a aprendeu.
O tempo foi passando e a doença foi avançando. Zelig não é mais aquele homem forte e grande. É um velhinho curvado, os olhos apagados.
Precisa de ajuda para vestir-se, banhar-se, comer. Passa os dias sentado, quieto.
Quase não fala e pouco sorri.
Mas de vez em quando o sorriso brota em seus olhos, espalha-se pelo rosto e chega até a boca, transformando-se numa gostosa gargalhada: é quando a linda senhorita de olhos cor de mel vai visitá-lo, senta-se ao seu lado, segura em suas mãos e canta para ele “Tatina”.


Kith | comentários(0)



20/04/2009 17:51

Morar na Praia? Tô fora!



Durante anos eu tive o sonho da “Casa na Praia”. Mas não o sonho da casa para o fim de semana. Casa para moradia mesmo, para “o resto da vida”. Aquela ilusão de que minha vida seria um paraíso, igualzinho aos filmes e novelas.

Até que depois de muito tempo, com a filha morando no exterior, resolvi trocar o apto, o barulho, a poluição, o trânsito, etc. de Sampa pela minha tão sonhada “Casa na Praia”.

Procurei e achei a casa dos sonhos. Quando eu a vi, tive certeza: era como eu sonhara. Uma casinha no estilo “da vovó”, com um belo quintal (que eu transformaria em jardim cheio de roseiras), cômodos amplos e arejados!

E a rua? Tranquila! Uma casa num endereço privilegiado: 800 metros à direita o mar, 800 metros à esquerda a Serra do Mar – inclusive com uma tribo indígena que passa todos os dias pela porta da casa!

Perfeito, não?

NÃO!!!

A cidade é pequena... E sem nenhuma infra-estrutura. Os supermercados são sujos e o “básico” que eles oferecem é absolutamente insuficiente. A Cia. elétrica é a pior possível: tenho que colocar estabilizadores em todas as tomadas (antes disso perdi um rádio-relógio e um micro-ondas por causa da oscilação da eletricidade). O sistema de água é o mais rudimentar possível: não existe rede de esgoto (tenho que ter fossa em casa!) e qualquer chuva é motivo para falta d’água (dizem que caem barreiras no reservatório), isso sem falar nos feriados e temporadas, onde a falta d’água é fato!

Ônibus até que tem, mas tenho que andar 700 metros até o ponto mais próximo – faça chuva ou sol.

Chuva! Esse é outro problema: por aqui chove quase que o tempo todo! Nesses quase quatro anos, não me lembro de uma semana sequer sem chuvas!

E os feriados (como hoje, por exemplo)? Filas imensas no supermercado, na padaria, trânsito intenso, praias lotadas e sujas e “vizinhos” de temporada que adoram mostrar o quão potentes são os equipamentos de som dos carros – é uma mistura de ritmos numa disputa de volume, que enlouquece qualquer pessoa com mais de 30!

Isso sem contar que a aparente tranquilidade é realmente aparente! A molecada adora soltar pipas... Com cerol (cortante)! Fora que as pipas parecem ter uma atração irresistível pelo meu telhado! E haja paciência! Toda hora tem um menino subindo pelo muro e se arriscando no telhado para “resgatar” uma pipa! Resultado: tenho que ter um grande estoque de telhas para trocar as quebradas! E, nos últimos tempos, começou uma onde de assaltos por aqui, acabando com a tranquilidade de “portas abertas sem medo”!

Por essas e outras é que decidi: estou voltando pra Sampa.

Coloquei a casa à venda, e não vou esperar: minhas coisas vão para um guarda-móveis e eu ficarei no apto. de Sampa (onde minha filha está morando) até poder comprar algo por lá.

Vou procurar com calma, conhecer bem a vizinhança, para não cair numa roubada.

Quanto à praia? Acho que tive uma “overdose”! Vai demorar pra ter vontade de visitar!


Kith | comentários(0)